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domingo, 7 de abril de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

Réquiem Para Um Despertar

          E, de repente, tudo o que ela havia construído até então parecia pífio demais para a imensidão de tantas vidas que pudera observar no seu novo dia a dia. Ela se misturou na multidão de tal forma confortável, que sorria. Seguia o fluxo e sorria, porque se sentia fazendo parte de algo real. 

         Tinhas os pés no chão, mas perspectivas de que as logo coisas dariam certo. Era uma esperança muito mais palpável do que aquelas que criara deitada na cama, antes de dormir, numa solidão silenciosa qualquer de um quarto escuro.

       Ela, que tinha as convicções de uma velha e as ideologias utópicas de um tolo, percebeu sua singularidade e sua pequenez perante ao mundo. 

          Não sentira a angústia orgulhosa de quem deixa de ser; sentira a serenidade maciça de quem passa a pertencer. 

          Era um mundo que a consumia. A sugava para dentro de si, e a camuflava em suas entranhas uniformes e movimentadas. E então, assim mesmo, de repente, ela saboreou a humildade. E, abriu os olhos para os ponteiros de um relógio que nunca carregara consigo. Passou a dar importância para as variedades estilísticas dos ambientes, e de pessoas. 

          Correra contra e à favor da linha de raciocínio da fé. Contra, quando via tão de perto a fome, o frio e o fado premeditado da massa que sobrevive para viver (ou vive para sobreviver). À favor, quando alguém lhe pedia licença, quando avistava um sorriso bobo de alguém distraído que surgia na multidão caminhando em sua direção e quando chegava cansada em casa mais um dia. Gostava de sentir-se cansada. Sabia que havia feito algo cumulativo naquele dia. E sabia que, hora ou outra, sua cama a acolheria com o carinho pelo qual rogara durante o dia todo. 


       De repente, ela até gostaria de afagar a barba de alguém que, num silêncio contemplativo, a escutaria detalhar os olhares cansados que vira, as observações pseudo-filosóficas que havia feito durante os intervalos analíticos do dia. De alguém em cujo peito repousaria o rosto, cujo cheiro a fizesse ronronar, cuja presença a fizesse sentir-se tão segura a ponto de deixar-se dormir. 


          Ela sabia que estava no lugar certo para crescer, aprender e se conhecer. E ela, que havia se construído à partir de resquícios de veracidade, pudera então presenciar coisas menos surpreendentes do que aquelas que lhe vieram "de repente", e enfim, viver. 

Sarah Nadim de Lazari


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"In A One Horse Open Sleigh"


Aaaaaah... o Natal está chegando.

É uma época linda e cheia de brilho cujos ideais são sempre de pacifismo, harmonia e comunhão.

É um tempo iluminado em que todos se comprometem a fingir que esqueceu-se de um ano cheio de paulada na cara, de quantas vezes se ‘tomounocu’ e de como é irresponsável comprar uma roupa bonitinha pra se travestir de felicidade numa ceia com a família. (Família...?)

No Natal a gente faz questão de transparecer uma elegância mentirosa, como se as contas atrasadas, o maldizer de um ano todo, e a ausência, fossem meros detalhes irrelevantes a todo ‘pseudo bem-querer’ programado que se tem que provar num abraço de “boas festas”. É quando se comungam as intrigas em uma conversa ociosa que, invariavelmente acaba em briga. 

O que deixa-nos tão acomodados em relação aos laços obrigatoriamente estabelecidos de Natal é saber que, no ano que vem, todos estarão ali novamente reunidos em volta de uma mesa farta de comida que sempre vai assistir a versão nova de uma velha história. Se outrora foram os presentes mal quistos, agora são as cervejas quentes demais. 

O deleite do saudosismo natalino é a ausência de uma pessoa sobre a qual se poderá passar a noite difamando.  

Desejo boas festas a você que eu não conheço, que eu nunca troquei duas palavras, e a você, que passa o ano todo esperando essa data especial, cuja essência insiste em falsificar as relações; plastificar as aparências. 

E já que insistem em acreditar em toda essa parafernália incandescente, venho por meio desta rogar ao Sr. Noel só uma coisinha: bom senso. 

Sarah Nadim de Lazari


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Coita, Consolo e Cura

Às vezes lembro de olhar para o céu
E fazer uma oração
Imaginar uma estrela cadente,
Fazer um pedido por uma intervenção.

Às vezes entrego tudo o que sonho
Nas mãos do destino, e então,
Espero que a sorte faça jus ao meus desejos
E me mostre uma nova opção.

Eu sei que em cada lágrima que cai
Há esperança e desolação.
Sei que o medo que me domina
É sempre uma fuga da frustração.

Às vezes finjo estar bem
Para que ninguém me incomode em minha solidão.
Mas há nos meus olhos e no espelho
O nojo da pena e da compaixão.

Às vezes acredito que tudo vai melhorar
E que vai passar esse estado de inquietação.
Às vezes é o vento; às vezes um trovão.
Me chama pra voar; silencia meu mundo com o poderio do seu som.

Eu sei que essa coita que exponho
É só a vitória de quem aprendeu a sofrer.
É que embora um consolo pareça o suficiente
Nada, nunca, vai me curar de mim.


Sarah Nadim de Lazari



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Insustentável Leveza das Mãos


Foram só mãos dadas
E um diálogo silenciosamente compreendido.
Foram só mãos dadas
E tanta coisa a se dizer.

Foram só mãos dadas
E a escuridão nos entendia.
Foram só mãos dadas
E as lembranças dia após dia.

Mãos de quem cumprimenta
Mãos de quem dá adeus.
Que, levantadas, soam eufóricas
E que dadas, temem o amanhecer.

Mãos que brincam, fraternais.
Mãos que sabem: se completariam.
Silenciosas: de poucas vogais
Mas que, singelas, disseram: “até mais”.


Sarah Nadim de Lazari
#dos confins dos cadernos usados em 2010. Singelo.




Indi(fere)nça



Em dias assim
mate ou malte
tanto faz.

São em dias assim
que azar ou sorte
satisfaz.

A indiferença é uma proeza
quando estamos no fim.
Ser forte explica o fato
De o meu ego só depender de mim.

Em tardes assim
o sol e a lua disputam
quem é mais capaz.

São em tardes assim
que o algoz amola as facas
num silêncio tenaz.

A obediência não me poupa
de sofrer tanto assim.
É o cárcere dos dias que leva ao medo
Entre um não e um sim.

Em noites assim
a solidão vigiada
me soa voraz.

Nas noites assim
há cigarro, dados
e espera pelo Ás.

A culpa é da saudade que eu sinto
e de uns goles de gim.
A melancolia só parece interessante
quando leva a um motim.

Sarah Nadim de Lazari
#música

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A Janela e Uma Xícara de Café


           Da janela do meu quarto vejo passar pelo céu, quase todas as noites, um avião. Resolvi acreditar que era mesmo um avião depois da terceira noite que o vi. Logo depois de ter confirmado o fato de ele não ser uma nave extraterrestre, nem uma estrela cadente com cauda verde fluorescente, e, depois de constatar que o sonido exalado por ele não era nenhuma onda hipnotizante ou infravermelho cancerígeno, imaginei um desenho.

É, um desenho desses feitos por criança com giz de cera no pré. O desenho era um risco vermelho no céu que, beirando à similaridade com as pinceladas do impressionismo de Van Gogh, denotava, num traço, o caminho feito pela aeronave. Ele se perdia de vista pra direita e pra esquerda, e, toda noite, parecia engrossar seu calibre. Era um rabisco “encarcado” no céu, que se pautava entre as estrelas como uma linha do tempo sem pontuações relevantes para serem citadas.

Fui mais longe. No momento em que o avião passa pelo meu campo visual, é possível que, lá dentro, haja alguém lendo um livro pelo qual eu me interessaria, uma possível aeromoça servindo bebidas amargas o suficiente para amansar as expectativas da chegada, ou para consolar a dor da partida. Talvez haja um piloto enjoado de reforçar a linha que traça o caminho feito pelo avião todos os dias, ou uma senhora sorridente carregada de presentes trazidos de longe pra entregar aos netos que não vê faz tempo.

Talvez haja alguém com fome da comida que esfriou em cima da minha escrivaninha. Talvez lá tenha a comida que eu gostaria de comer a esta hora da noite. Pode ser que um celular ligado derrube este avião, ou que uma moça desconhecida encoste a cabeça no ombro de um rapaz “pseudo-intelectual” de óculos, barba e camisa social. É que, nesse desenho que enxergo, os fatos e as observações são côngruas demais pra serem grifadas.

Faz parecer que a vida, é maciça. Que embora o rabisco seja o mesmo, em suas duas pontas (a chegada e a partida), ele se ramifica feito capilares sanguíneos que ligar-se-ão a outras retas que cravam histórias lineares entre si. Retas que mudam de cor, textura, que são curvilíneas ou tracejadas, mas que, hora ou outra, unem-se ou separam-se pelo mesmo motivo: o acaso.

Da janela do meu quarto vejo passar pelo céu, quase todas as noites, um avião. A janela, esse avião e o café frio que me esqueci de tomar enquanto dialogava com minha câimbra mental, me ensinaram que esse embaraço de linhas, condutas e vidas, é uma coisa só. É perspectiva.

Uma espera, ainda que ultrajada de comodismo ou convicção. Quanto tempo até o avião pousar? Até o taxi chegar? Até eu reencontrar um amor ou até essa espinha grotesca sumir do meu rosto? Quanto tempo até o Natal ou até a viagem que programamos para o meio do ano? Quanto tempo até a morte chegar e me livrar de caminhar por “lugares nenhum”? Quanto tempo até você? Quanto tempo até nós?

Maciça; prospecta; ingenuamente programada: vida.

Um avião, uma carroça ou as águas de março... Tudo desemboca num mesmo mar: o fim da linha.


Sarah Nadim de Lazari