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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Campbell, Filhos E Enxoval


        Há um equívoco gutural nas primeiras impressões.
É uma conclusão que arremata várias outras situações, mas, em particular, uma sempre chama a atenção: já reparou na reação que as pessoas têm diante de uma afirmação como “eu não quero ter filhos” ou “não pretendo me casar”?
Os músculos faciais se rebelam contra a tentativa de parecer normal diante de tais pressupostos, e o espírito de avó do século XIX faz murchar a cara como quem chupa  um limão.
A abstração espectadora permite a ingestão desse determinismo moral que está encravada numa mediocracia que decidiu que o código de conduta do bom cidadão, da boa moça e mulher digna é casar-se, ter filhos sem saber para quê tê-los; sem querer sabê-los.
Pasme, você, que com 13 anos de idade já tinha um enxoval completo todo bordado em “ponto cruz”: as pessoas amam. Ainda que não tenham filhos nem oficializem uma união dessas que os torna reféns não de um laço espiritual, mas jurídico, elas amam sim!
Não é preciso ser capaz de colocar outras vidas no mundo para se ter sentimentos tão belos quanto os “shakespeareanos”. Muito menos são precisas duas  assinaturas  num papel condecorado de demagogias ilusórias que ultrajam de vida toda uma lua de mel em Paris.
Conviver com o fato de que opta-se pela liberdade até por cima do cadáver da tradição é difícil até pra quem usa calça “jeans” e tênis da moda. Fácil é aceitar o fato de que “vampiros se apaixonam por seres humanos e de que lobos são quentes e valentes.”
Condenar a opção por uma união (ou não) livre de toda pressão tradicional ou a abdicação da responsabilidade de ter um filho ortogado pelo egoísmo ambiental que é a perpetuação da espécie, é medo. Medo de ser julgado pelos mesmos parâmetros pelos quais você julga. Medo de provar do amargo do próprio veneno.
Pasme, você, que tem 3 filhos, 1 hérnia e pouco tempo: finais felizes precedem frustrações.
Pasme, você, que com 20 anos de casado assinou uma vez só o “certificado de conclusão de curso”: amar, se aprende amando.

Sarah Nadim de Lazari
#2012




terça-feira, 7 de agosto de 2012

A Utopia do Possível


       John Lennon sonhou com a paz mundial; Martin Luther King, com a igualdade entre negros e brancos; Hitler, com a pureza da raça ariana; Cazuza, com uma ideologia; uma bailarina gorda sonha com mil saltos mortais; minha mãe sonha com um netinho e meu pai com meu sucesso profissional; até Baleia sonhava com um mundo cheio de preás. Ferreira Gullar acertou: “o sonho é popular”.
À partir do momento em que se passa a recorrer o porquê de se sonhar, e deixa-se de lado as considerações feitas diante das coisas com as quais se sonha, sobressalta-se: por que sonhamos?
Os mais otimistas sugerem que sonhar é um estímulo, uma incitação à realização de tal sonho. Os pessimistas fazem do sonho um aval para evitar esforços, para distar cada vez mais do potencial de realização de qualquer ideal. O saudosista faz do passado um sonho antigo, uma hipótese limitada pelo tempo. O violeiro que toca em frente sonha porque nunca quer parar de caminhar. Os vestibulandos usam do sonho porque é o trunfo mais sustentável para a persistência.
O onírico não é ilícito, mas corrompe tanto quanto a poesia. Ilude a gregos e troianos, porque é uma chance. Ser possibilidade não exclui do roteiro uma das facetas da vida que pode ser o fracasso, mas alimenta o vício da fé. Fé naquilo que é alcançável, mas esquiva do medo de que seja impossível.
Vertentes do bem ou do mal, da riqueza ou da simplicidade, do individualismo ou do bem comum, do dogmatismo ou do cepticismo, tanto faz. Sonhos? Julgue-os como possíveis, saboreie-os como impossíveis, mas acorde assim que a realidade lhe apontar um tiro “à queima roupa”; desperte quando a utopia do possível engolir tal realidade; tenha sonhos capazes de sacudir o mundo. 
“Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só”. Raul Seixas de novo? Use-o como subterfúgio do individual nocivo, afinal, é por isso que o sonho é popular, não?
Sarah Nadim de Lazari
#2011

Covardia Alegórica


        Sabe do que eu tenho medo? De covardia. Morro de medo de quando as pessoas fogem dos riscos, das dificuldades e optam pelo caminho mais curto. Medo porque é por aí que moram as maiores monstruosidades com as quais podemos nos deparar no futuro.
Ali está o Arrependimento. Bicho peçonhento. Tem origem na tentação, na simplificação das coisas, na esquiva dos males, na fuga dos problemas, e na bendita covardia. É que quando surge uma oportunidade de burlar as intempéries do acaso, ainda que através de meios nada éticos, Fulano vai lá e pronto: “supera” o problema. Acontece que problema que é problema, não brinca de esconde-esconde com o destino, e invariavelmente, na sua sagacidade feroz de achar o caminho de volta pra casa, retoma seu interlocutor com um afinco de saudade e vingança por ter sido enganado, e vem correndo pela areia da praia, cabelos ao vento e vestido de branco . E aí, “pimba”: a lástima; o choro; um nhenhenhém digno de um dramalhão mexicano; uma coita que só por Deus. O danado se arrepende.
No caminho mais curto mora a Injustiça também. Não se percebe que para driblar qualquer pedra no meio do caminho mais longo, a gente toma posse do caminho alheio. Invade-se, quase sempre, um pedaço de terra carpido, adubado quiçá e desocupado de outrem. Aí, se você é mais forte, tem um sobrenome bonito, ou uma conta gorda no banco, tudo bem, mas se for um Ninguém, ladrão de galinha, ou Zé Ruela, mirrado, vai se danar. A vida sempre cobra de quem não tem com o que pagar.
A covardia finge que manipula o Tempo também. O medo de envelhecer ou de morrer faz correr atrás de uma aparência jovial, ou de uma pseudo-saúde comprada, manipulada na farmácia da esquina, ou adquirida em um canal de televendas.  Quando for covarde o suficiente pra temer o espelho, quando as rugas soarem como sinais de um tempo que passou gratuitamente, ou quando a fantasia de possuir o mesmo corpo quando em tempos de nudez manifestar-se, não tema: orgulhe-se. A indiferença diante da experiência é medo de não ter usufruído de todas as possibilidades.
Morro de medo da Inveja, que é a covardia que o Cicrano tem de elogiar. Custa alegrar-se com a roupa bonita da colega? Qual o problema com o carro novo do vizinho? Vai mesmo procurar todos os dias um novo defeito para o patrão? A inveja que te assombra e corrói por dentro é um câncer na sua auto-estima. Um tumor de três quilos, que lhe aproxima sempre mais do fundo do poço, da depressão, do ópio que talvez seja a solidão.
O Arrependimento, a Injustiça, o Tempo e a Inveja dão medo. São ou já foram medo. Carregam na essência o pé atrás, o oportunismo, uma razão angustiada e cansada de pensar, a privação de prazeres por um juros a ser retirado sabe-se lá em qual vida. Se antes a fé, agora, a certeza do fim. Se antes um futuro, agora, um passado.  Se antes o medo, agora, a dúvida.


Sarah Nadim de Lazari
#2010


sábado, 4 de agosto de 2012

Conectado


Sempre vai ralar as mãos quando cair
Não vai aprender a se apoiar
Sempre vai ter que conectar pra conseguir
Não vai aprender a batalhar
Sempre achou que as coisas cairiam do céu
Mas, até então,
Só um raio e um trovão
Que derrubou a conexão
E, agora, solidão

Não sabia que a vida era pior do que um chefão
Como vai passar de fase sem um controle na mão?
Uma vida na mochila e muita imaginação
Alguns planos virtuais e nenhuma realização
De companhia no quarto, o mundo inteiro e um violão
Mas um raio e um trovão
Derrubou a conexão
E, agora, solidão

Buscava semelhanças com o perfil de alguém
Que por fotos e frases parecia ser do bem
Photoshops  e mentiras não foram só o problema
A vergonha e a estatura também eram um dilema
Muitas madrugadas e muito papo furado
Queria achar alguém que não fosse só mais um tarado
Mas um raio e um trovão
Derrubou a conexão
E agora, solidão
Desde quando, solidão?

Sarah Nadim de Lazari
#música

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Tempos de Camisola


Ela se acostumou com a solidão
De tal forma que agora teme a multidão,
E se esqueceu do calor de um abraço
E de como é bom pegar na mão.

Ela ocupa a cama toda sozinha,
E usa os travesseiros de companhia.
Deita mais cedo por falta do que fazer,
Vestindo a camisola bege de quem não sente mais prazer.

Percebeu que não faz falta pra ninguém,
E que de tanto escolher, acabou escolhida.
Fala convictamente com o cachorro,
Considerando o rabo abanando uma resposta sensata.

Seu consolo é uma comédia romântica,
E seu ator favorito tem 18 anos.
Agora seu psicólogo é um pote de sorvete,
E sua pílula anti-stress não funciona mais.

A falta de alguém ao lado, de repente, incomoda,
E aquele número de telefone se torna pertinente.
Agora preza por um futuro contente,
Que há tempos, julgava indiferente.

E acredita que o azar um dia vai dar trégua.
E tenta se concentrar pra voltar no tempo,
Quando fazia sentido se maquiar ou dançar.
Quando valia a pena sair para flertar.

Ela foge dos espelhos que a engordam demais.
E vai trocar de carro, mas, tanto faz...
Cozinha um banquete pra comer sozinha,
E só limpa o fogão quando vem visita.

Ela se esqueceu de como é ser beijada.
Como fazer com a língua, e onde pôr a mão.
Se sente acariciada quando se afaga na escuridão.
E se aquece com o peso de um monte de edredom.

Acontece que ela se acostumou com a solidão,
E vai levar um tempo até abrir o coração,
Que foi lacrado pelo medo e pela decepção
E que agora só funciona por conta da razão.

Mas se um dia ela quiser ser amada de novo,
Vai ser tão simples como na televisão?
Vai achar alguém, um caminho ou uma estrada
Que não a leve de volta pra essa pista de uma só direção?
Solidão.

Sarah Nadim de Lazari
#2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Insustentável Leveza da Felicidade


Eudemonismo é uma doutrina segundo a qual felicidade é o objetivo da vida humana. Pasme: eis aí uma quimera inalcançável.  
Antes de um suicídio coletivo, de um rampante de desespero, ou mesmo antes de virar a página pra ler um texto com o “efeito dopamínico” de uma realidade agradável, explico.
Com uma mordiscada de filosofia fast-food é possível promover um “solo psíquico” capaz de absorver coerentemente o fato de a felicidade ser uma ambição transmutável. A justificativa do possível é uma das correntes mais racionais através da qual limita-se os sonhos; pondera-se o desejo; restringe-se ao palpável, a ambição.
Se o hedonismo, hoje, é o ópio do estereótipo, é por conta de uma indústria que conseguiu fazer com que fosse absorvida a ideia de que ser feliz é ter um corpo semelhante ao das modelos de comerciais, uma roupa que transpareça superioridade através da etiqueta, ou uma família tão perfeita quanto à do comercial de margarina.
Enquanto o “Prozac” da razão toma forma de contracultura, anarquia ou chatice, o tempo vai galgando saudades, frustrações e o enfraquecimento das certezas morais. Tornamos a indiferença uma constante espera pelo êxtase da vida, sem saber que esse estoicismo mal interpretado, essa apatia diante das coisas simples e agradáveis de agora, são falsas resiliêcias. Não é adaptação. É fuga.
Felicidade não pode ser objetivo pelo simples fato de que ninguém “é” feliz: “está”. 
Entre a certeza de uma vontade e a vontade de uma certeza, há de se tentar e crer numa vida pendular que mantém o sublime e o passageiro sempre de mãos dadas.

Sarah Nadim de Lazari 
#2012



A Persistência da Escória

Quando sua vida pausar
E parecer com uma obra de Dalí
Faça uma errata da vida
E se surpreenda com o que sempre quis

Quando seu destino for o próximo minuto
E cada passo parecer uma ilusão
Deixe sua agenda de lado
E faça do silêncio uma diversão

Eu sei que cada página lida
É uma esperança de encontrar a solução
Sei que todo medo que eu sinto
É um resquício de desilusão

Eu sei que não adianta ler Freud
Humberto Gessinger, Kant ou Platão
Mas busco na maturidade dos outros
Uma esperança ou uma explicação

Quando seu horizonte turvar
E o acaso engatar a macha ré
Saboreie algum filme de Almodóvar
E até num maço de cigarros tenha fé

Quando o despertador tocar de novo
Já será tarde demais para viver
Esse seu botox emocional
É sua ânsia de envelhecer.

Sarah Nadim de Lazari
#2011