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sábado, 4 de agosto de 2012

Conectado


Sempre vai ralar as mãos quando cair
Não vai aprender a se apoiar
Sempre vai ter que conectar pra conseguir
Não vai aprender a batalhar
Sempre achou que as coisas cairiam do céu
Mas, até então,
Só um raio e um trovão
Que derrubou a conexão
E, agora, solidão

Não sabia que a vida era pior do que um chefão
Como vai passar de fase sem um controle na mão?
Uma vida na mochila e muita imaginação
Alguns planos virtuais e nenhuma realização
De companhia no quarto, o mundo inteiro e um violão
Mas um raio e um trovão
Derrubou a conexão
E, agora, solidão

Buscava semelhanças com o perfil de alguém
Que por fotos e frases parecia ser do bem
Photoshops  e mentiras não foram só o problema
A vergonha e a estatura também eram um dilema
Muitas madrugadas e muito papo furado
Queria achar alguém que não fosse só mais um tarado
Mas um raio e um trovão
Derrubou a conexão
E agora, solidão
Desde quando, solidão?

Sarah Nadim de Lazari
#música

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Tempos de Camisola


Ela se acostumou com a solidão
De tal forma que agora teme a multidão,
E se esqueceu do calor de um abraço
E de como é bom pegar na mão.

Ela ocupa a cama toda sozinha,
E usa os travesseiros de companhia.
Deita mais cedo por falta do que fazer,
Vestindo a camisola bege de quem não sente mais prazer.

Percebeu que não faz falta pra ninguém,
E que de tanto escolher, acabou escolhida.
Fala convictamente com o cachorro,
Considerando o rabo abanando uma resposta sensata.

Seu consolo é uma comédia romântica,
E seu ator favorito tem 18 anos.
Agora seu psicólogo é um pote de sorvete,
E sua pílula anti-stress não funciona mais.

A falta de alguém ao lado, de repente, incomoda,
E aquele número de telefone se torna pertinente.
Agora preza por um futuro contente,
Que há tempos, julgava indiferente.

E acredita que o azar um dia vai dar trégua.
E tenta se concentrar pra voltar no tempo,
Quando fazia sentido se maquiar ou dançar.
Quando valia a pena sair para flertar.

Ela foge dos espelhos que a engordam demais.
E vai trocar de carro, mas, tanto faz...
Cozinha um banquete pra comer sozinha,
E só limpa o fogão quando vem visita.

Ela se esqueceu de como é ser beijada.
Como fazer com a língua, e onde pôr a mão.
Se sente acariciada quando se afaga na escuridão.
E se aquece com o peso de um monte de edredom.

Acontece que ela se acostumou com a solidão,
E vai levar um tempo até abrir o coração,
Que foi lacrado pelo medo e pela decepção
E que agora só funciona por conta da razão.

Mas se um dia ela quiser ser amada de novo,
Vai ser tão simples como na televisão?
Vai achar alguém, um caminho ou uma estrada
Que não a leve de volta pra essa pista de uma só direção?
Solidão.

Sarah Nadim de Lazari
#2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

A Insustentável Leveza da Felicidade


Eudemonismo é uma doutrina segundo a qual felicidade é o objetivo da vida humana. Pasme: eis aí uma quimera inalcançável.  
Antes de um suicídio coletivo, de um rampante de desespero, ou mesmo antes de virar a página pra ler um texto com o “efeito dopamínico” de uma realidade agradável, explico.
Com uma mordiscada de filosofia fast-food é possível promover um “solo psíquico” capaz de absorver coerentemente o fato de a felicidade ser uma ambição transmutável. A justificativa do possível é uma das correntes mais racionais através da qual limita-se os sonhos; pondera-se o desejo; restringe-se ao palpável, a ambição.
Se o hedonismo, hoje, é o ópio do estereótipo, é por conta de uma indústria que conseguiu fazer com que fosse absorvida a ideia de que ser feliz é ter um corpo semelhante ao das modelos de comerciais, uma roupa que transpareça superioridade através da etiqueta, ou uma família tão perfeita quanto à do comercial de margarina.
Enquanto o “Prozac” da razão toma forma de contracultura, anarquia ou chatice, o tempo vai galgando saudades, frustrações e o enfraquecimento das certezas morais. Tornamos a indiferença uma constante espera pelo êxtase da vida, sem saber que esse estoicismo mal interpretado, essa apatia diante das coisas simples e agradáveis de agora, são falsas resiliêcias. Não é adaptação. É fuga.
Felicidade não pode ser objetivo pelo simples fato de que ninguém “é” feliz: “está”. 
Entre a certeza de uma vontade e a vontade de uma certeza, há de se tentar e crer numa vida pendular que mantém o sublime e o passageiro sempre de mãos dadas.

Sarah Nadim de Lazari 
#2012



A Persistência da Escória

Quando sua vida pausar
E parecer com uma obra de Dalí
Faça uma errata da vida
E se surpreenda com o que sempre quis

Quando seu destino for o próximo minuto
E cada passo parecer uma ilusão
Deixe sua agenda de lado
E faça do silêncio uma diversão

Eu sei que cada página lida
É uma esperança de encontrar a solução
Sei que todo medo que eu sinto
É um resquício de desilusão

Eu sei que não adianta ler Freud
Humberto Gessinger, Kant ou Platão
Mas busco na maturidade dos outros
Uma esperança ou uma explicação

Quando seu horizonte turvar
E o acaso engatar a macha ré
Saboreie algum filme de Almodóvar
E até num maço de cigarros tenha fé

Quando o despertador tocar de novo
Já será tarde demais para viver
Esse seu botox emocional
É sua ânsia de envelhecer.

Sarah Nadim de Lazari
#2011




quarta-feira, 11 de julho de 2012

A Persistência da Memória

Segundo o dicionário, a palavra hábito significa “disposição adquirida pela repetição freqüente dum ato; costume”. É fato que, entre a virtude e a conveniência, o brasileiro está, sobretudo, habituado a conviver e assistir à fanfarrice dos politiqueiros exploradores que sondam ou sondaram o governo do país.  É fato também, que os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento, que quem engana, encontra sempre a quem se deixe enganar. Mas, e quando a necessidade pende para o lado do enganado? Ele habitua-se.
É o que acontece com o brasileiro que, quando, em tempos de corrupção, lavagem de dinheiro, e abuso do poder de políticas públicas, cala-se diante da impunidade.  A retórica capaz de direcionar a opinião pública que os criminosos de colarinho branco empregam, ainda seduz as maiorias: uma parcela social convenientemente esperançosa. Uma esperança direcionada por este discurso oportunista que não passa de um interesse travestido de profecia.
Esperança? Galileu Galilei, Leonardo da Vinci e Nicolau Copérnico, considerados loucos em sua época, foram incapazes de sobrepor o hábito vigente lá, mas revolucionaram o mundo. Essa expectativa da sociedade de melhoria há de se transfigurar em ânsia por punição e justiça. É que aquele que engana, faz do enganado sua corja, e lhes tira o emprego, a residência, o prato de comida da mesa, a assistência de saúde e educação com tamanha sutileza, que ludibria, mas, a consciência disso, e de que é possível sim, como foi outrora, mudar o rumo das coisas, já é uma grande vantagem.
A garantia confiável da impunidade, que tem gerado uma recompensa satisfatória a quem se beneficia sobre quem facilita, é impulsionada pela estagnação brasileira, mas acreditar que somos capazes de mudar qualquer aspecto de nossa vida é talvez o primeiro passo para conquistarmos um futuro com o qual concordemos, onde a persistência da memória faz da história, um mapa moral.
        Entre uma sociedade teocrática sugerida por Santo Agostinho e um governo dirigido por intelectuais, como Platão sugeriu, roga-se para que o povo seja sábio para questionar, julgar e acreditar em mudanças, e perspicaz o suficiente para ponderar a confiança e a dúvida, a gentileza e a má intenção, e a fé e o governo dirigido por seres humanos e só.

Sarah Nadim de Lazari
#2011


terça-feira, 10 de julho de 2012

Pão Com Manteiga

Na urgência visceral de ter tempo pra tudo, a gente se esquece de saborear as sensações. Na maioria das vezes estamos de corpo presente na crista da onda; a mente navega por outros mares sem saber que, mais cedo ou mais tarde, as ondas se quebram – digerem entre pancadas violentas e borbulhas amarelo-terrosas, o anti-fuso horário dos karmas.
Aí, um belo dia, numa epifania daquelas que merecem um “close” de final de novela, descobre-se o passado. Uma imensidão de dúvidas que não custeiam a pureza, mas, possibilidades. “E se...?”.
A imaginação remonta probabilidades de a vida ter sido outra a partir de uma atitude diferente, de um sorriso não esboçado ou de uma palavra mal interpretada. Acontece que o tempo não está disposto a negociações. Ao passo que torna o presente indiferente, tumultua o futuro numa ansiedade insana de ser “não sei o quê”, de ter “não sei o que lá”, ou de reencontrar “não sei quem”. Ninguém mais consegue “estar”.
Hoje, paradoxalmente, as pessoas “foram” ou “serão”.
Quando a gente não tem aval literário, quando não temos cabelos grisalhos nem rugas imponentes ou se não sabemos fumar um charuto importado com classe, a gente põe a culpa de uma ideia bem bolada nos conselhos de um avô, nos ditos de um sábio ou nas memórias póstumas de quem quer que seja. Isto posto, resta expor que, como meu avô dizia: quando não se sabe o que fazer, para onde ir ou quando as especulações de um “e se...” tomarem muitas horas de suas noites, coma um pão com manteiga.
Entre a coita e o paladar, entre o bêbado e um equilibrista, entre surfar e naufragar está a simplicidade. Sofrer, cair ou afundar é só uma questão de saber degustar.

Sarah Nadim de Lazari
#2012



Relação Perigosa


Não se procure
Você está bem aí
Frente a frente com você
É um prazer te conhecer?

Por que o espanto?
Até parece não notar
Que todos estes anos
Tiraram as coisas do lugar

Você que questiona os medos
E anseios dos que se aproximam de ti
Faz isso por que os seus devaneios
Te assombram na hora de dormir

Agora perdeu a graça
Comemorar por existir?
É que quanto mais se sobe
Maior é a dor de cair.

Esse espelho é um perigo
Porque sempre as respostas
Vêm antes
De uma dúvida surgir

Se relacionar consigo
É olhar pra dentro de um mundo
Onde quase sempre o abrigo
Aparece bem perto do fundo.

 Sarah Nadim de Lazari
#2012