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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Dele(i)te

Deletei o facebook.
Já não vêem mais minha "face".
Tenho um "book" pra compartilhar.

Deletei o facebook.
Não me lembro como eu era.
Preciso de alguém pra me contar.

Deletei o facebook.
Deletaram-me de suas vidas. 
Substituíram-me por umas curtidas. 

Deletei o facebook.
Esquecem de me convidar.
Esquecem de me parabenizar.

Deletei o facebook.
Permito-me sentir saudades.
Aprecio a vida com um novo paladar.


Brincadeirinhas de um "nada pra fazer".
Sarah Nadim de Lazari.



Um Gole de Cicuta


É estranho não participar das marés modais e morais que vão e vêm para as pessoas. Ser diferente é pejorativo hoje em dia. Não referindo-se a cor, credo ou sexualidade, mas às concepções do que deveras é o certo nas condutas cotidianas.

Por que é que insistem em se martirizar por não ter um tênis de marca refinada? “Refinada”.

Por que usar uma blusa cuja estampa é um rótulo em cores gritantes que se autoafirmam usando as pessoas de vitrine?

Quanto custa a sua intimidade e o sua individualidade, se tudo pelo que você lutou até hoje virou um penduricalho compartilhado entre várias pessoas?

Ter um celular com utilidades mil tornou-se, de um dia pra outro, indispensável. O mundo pautado pelo digital é uma corrosão à autenticidade e à realidade.

Não mais deleita-se de vida. Conecta-se a um universo paralelo, a um modo automático de existência que dirige as personalidades pelo que elas postam em seus perfis sociais.

Viramos um livro de receitas de nós mesmos. Compartilhamos com o mundo aquilo que ouvimos, comemos, dançamos, para onde vamos, ou de onde viemos, como se procurássemos alguma aprovação. Alguém que vá nos degustar e recomendar-nos como uma boa pedida.

Temperamo-nos com títulos, marcas e padrões que, de tão uniformizados, nos torna insossos.

A necessidade de ter e de ser aquilo que todo mundo tem ou é, me dá medo.

Não é de hoje que se escuta dizer que há um veneno certo contra determinado tipo de praga.

Se veneno a personalidade, praga a futilidade.


Sarah Nadim de Lazari



domingo, 7 de abril de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

Réquiem Para Um Despertar

          E, de repente, tudo o que ela havia construído até então parecia pífio demais para a imensidão de tantas vidas que pudera observar no seu novo dia a dia. Ela se misturou na multidão de tal forma confortável, que sorria. Seguia o fluxo e sorria, porque se sentia fazendo parte de algo real. 

         Tinhas os pés no chão, mas perspectivas de que as logo coisas dariam certo. Era uma esperança muito mais palpável do que aquelas que criara deitada na cama, antes de dormir, numa solidão silenciosa qualquer de um quarto escuro.

       Ela, que tinha as convicções de uma velha e as ideologias utópicas de um tolo, percebeu sua singularidade e sua pequenez perante ao mundo. 

          Não sentira a angústia orgulhosa de quem deixa de ser; sentira a serenidade maciça de quem passa a pertencer. 

          Era um mundo que a consumia. A sugava para dentro de si, e a camuflava em suas entranhas uniformes e movimentadas. E então, assim mesmo, de repente, ela saboreou a humildade. E, abriu os olhos para os ponteiros de um relógio que nunca carregara consigo. Passou a dar importância para as variedades estilísticas dos ambientes, e de pessoas. 

          Correra contra e à favor da linha de raciocínio da fé. Contra, quando via tão de perto a fome, o frio e o fado premeditado da massa que sobrevive para viver (ou vive para sobreviver). À favor, quando alguém lhe pedia licença, quando avistava um sorriso bobo de alguém distraído que surgia na multidão caminhando em sua direção e quando chegava cansada em casa mais um dia. Gostava de sentir-se cansada. Sabia que havia feito algo cumulativo naquele dia. E sabia que, hora ou outra, sua cama a acolheria com o carinho pelo qual rogara durante o dia todo. 


       De repente, ela até gostaria de afagar a barba de alguém que, num silêncio contemplativo, a escutaria detalhar os olhares cansados que vira, as observações pseudo-filosóficas que havia feito durante os intervalos analíticos do dia. De alguém em cujo peito repousaria o rosto, cujo cheiro a fizesse ronronar, cuja presença a fizesse sentir-se tão segura a ponto de deixar-se dormir. 


          Ela sabia que estava no lugar certo para crescer, aprender e se conhecer. E ela, que havia se construído à partir de resquícios de veracidade, pudera então presenciar coisas menos surpreendentes do que aquelas que lhe vieram "de repente", e enfim, viver. 

Sarah Nadim de Lazari


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"In A One Horse Open Sleigh"


Aaaaaah... o Natal está chegando.

É uma época linda e cheia de brilho cujos ideais são sempre de pacifismo, harmonia e comunhão.

É um tempo iluminado em que todos se comprometem a fingir que esqueceu-se de um ano cheio de paulada na cara, de quantas vezes se ‘tomounocu’ e de como é irresponsável comprar uma roupa bonitinha pra se travestir de felicidade numa ceia com a família. (Família...?)

No Natal a gente faz questão de transparecer uma elegância mentirosa, como se as contas atrasadas, o maldizer de um ano todo, e a ausência, fossem meros detalhes irrelevantes a todo ‘pseudo bem-querer’ programado que se tem que provar num abraço de “boas festas”. É quando se comungam as intrigas em uma conversa ociosa que, invariavelmente acaba em briga. 

O que deixa-nos tão acomodados em relação aos laços obrigatoriamente estabelecidos de Natal é saber que, no ano que vem, todos estarão ali novamente reunidos em volta de uma mesa farta de comida que sempre vai assistir a versão nova de uma velha história. Se outrora foram os presentes mal quistos, agora são as cervejas quentes demais. 

O deleite do saudosismo natalino é a ausência de uma pessoa sobre a qual se poderá passar a noite difamando.  

Desejo boas festas a você que eu não conheço, que eu nunca troquei duas palavras, e a você, que passa o ano todo esperando essa data especial, cuja essência insiste em falsificar as relações; plastificar as aparências. 

E já que insistem em acreditar em toda essa parafernália incandescente, venho por meio desta rogar ao Sr. Noel só uma coisinha: bom senso. 

Sarah Nadim de Lazari


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Coita, Consolo e Cura

Às vezes lembro de olhar para o céu
E fazer uma oração
Imaginar uma estrela cadente,
Fazer um pedido por uma intervenção.

Às vezes entrego tudo o que sonho
Nas mãos do destino, e então,
Espero que a sorte faça jus ao meus desejos
E me mostre uma nova opção.

Eu sei que em cada lágrima que cai
Há esperança e desolação.
Sei que o medo que me domina
É sempre uma fuga da frustração.

Às vezes finjo estar bem
Para que ninguém me incomode em minha solidão.
Mas há nos meus olhos e no espelho
O nojo da pena e da compaixão.

Às vezes acredito que tudo vai melhorar
E que vai passar esse estado de inquietação.
Às vezes é o vento; às vezes um trovão.
Me chama pra voar; silencia meu mundo com o poderio do seu som.

Eu sei que essa coita que exponho
É só a vitória de quem aprendeu a sofrer.
É que embora um consolo pareça o suficiente
Nada, nunca, vai me curar de mim.


Sarah Nadim de Lazari



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Insustentável Leveza das Mãos


Foram só mãos dadas
E um diálogo silenciosamente compreendido.
Foram só mãos dadas
E tanta coisa a se dizer.

Foram só mãos dadas
E a escuridão nos entendia.
Foram só mãos dadas
E as lembranças dia após dia.

Mãos de quem cumprimenta
Mãos de quem dá adeus.
Que, levantadas, soam eufóricas
E que dadas, temem o amanhecer.

Mãos que brincam, fraternais.
Mãos que sabem: se completariam.
Silenciosas: de poucas vogais
Mas que, singelas, disseram: “até mais”.


Sarah Nadim de Lazari
#dos confins dos cadernos usados em 2010. Singelo.